O PODER E A ESPIRITUALIDADE II

20:46:00




   Em maio de 1925, cinco dos mais bem-sucedidos sucateiros franceses foram convidados para uma reunião "oficial", porém "altamente confidencial" com o vice-diretor-geral dos Correios e Telégrafos, no Hotel Crillon, na época o mais luxuoso de Paris. Quando os negociantes chegaram, foi o próprio diretor-geral, um tal de Monsieur Lustig, que os recebeu numa suíte sofisticada no último andar.

   Os negociantes não podiam imaginar o motivo do convite e estavam explodindo de curiosidade. Depois dos drinques, o diretor explicou, "Senhores", disse ele, "este é um assunto urgente que requer sigilo total. O governo vai ter de desmontar a Torre Eiffel". Os negociantes ouviram pasmos, e em silêncio, enquanto o diretor explicava que a torre, como divulgado recentemente nos jornais, estava precisando urgentemente de reparos. Tinha sido projetada originalmente como uma estrutura temporária (para a Exposição de 1889) e o custo da sua manutenção havia subido muito ao longo dos anos, e agora, numa época de crise fiscal, o governo teria que gastar milhões para consertá-la. Muitos parisienses a consideravam um horror e gostariam muito de vê-la desaparecer de cena. Com o tempo, até os turistas a esqueceriam - ela continuaria existindo nas fotografias e nos cartões-postais. "Senhores", disse Lustig, "estão todos convidados a fazer uma oferta ao governo pela Torre Eiffel."

    Ele deu aos negociantes folhas de papel com o timbre do governo, cheias de números, tais como a tonelagem do metal da torre. Os olhos deles se esbugalharam calculando quanto ganhariam com a sucata. Em seguida Lustig os acompanhou até uma limusine que os levou até a Torre Eiffel. Exibindo um distintivo oficial, eles os guiou pela área, temperando a visita com anedotas engraçadas. No final agradeceu e lhes deu quatro dias para entregarem suas ofertas na sua suíte no hotel.

    Dias depois de feitas as ofertas, um dos cinco, um certo Monsieur P., recebeu a notícia de que vencera a concorrência e, para garantir a venda, deveria se apresentar na suíte do hotel dentro de dois dias, levando um cheque visado de mais de 250 mil dólares (o equivalente hoje a cerca de um milhão de dólares) - um quarto do preço total. No ato da entrega do cheque, ele receberia os documentos confirmando a sua propriedade da Torre Eiffel. Monsieur P. ficou entusiasmado - ficaria na história como o homem que tinha comprado e desmontado o infame marco. Mas ao chegar à suíte, com o cheque na mão, ele começou a duvidar do negócio. Por que marcar o encontro num hotel e não num prédio do governo? Por que não ouvira falar de outros funcionários? Seria uma brincadeira, uma fraude? Ao ouvir Lustig discutindo arranjos para transformar a torre em sucata, ele hesitou, e pensou em desistir.

    Mas, de repente, ele percebeu que o diretor tinha mudado de tom. Em vez de falar da torre, ele estava se queixando do seu baixo salário, do desejo da mulher de possuir um casaco de peles, de como era exasperante trabalhar tanto e não ser valorizado. Ocorreu a Monsieur P. que este alto funcionário do governo estava falando a verdade, visto que todos os outros burocratas franceses com quem já tinha se encontrado inevitavelmente lhe pediram um pequeno suborno. Recuperada a sua confiança, Monsieur P. molhou a mão do diretor com milhares de francos em células, depois lhe entregou o cheque visado. Em troca recebeu a documentação, inclusive uma vistosa escritura de venda. Ele saiu do hotel sonhando com os lucros e a fama que viriam a seguir.

    Conforme foram se passando os dia, entretanto, enquanto aguardava a correspondência do governo, Monsieur P. começou a perceber que havia alguma coisa errada. Alguns telefonemas esclareceram que não existia nenhum vice-diretor geral Lustig, e também nenhum plano para destruir a Torre Eiffel: ele fora fraudado em 250 mil dólares!

    Monsieur P. não procurou a polícia. Ele sabia como ficaria a sua reputação se a notícia de que tinha caído no conto do vigário mais absurdamente audacioso da história se espalhasse. Além da humilhação pública, seria suicídio em termos de negócio.

    ---------------------------------------------------------------------

    Se o conde Victor Lustig, extraordinário trapaceiro, tivesse tentado vender o Arco do Triunfo, uma ponte sobre o Sena, uma estátua de Balzac, ninguém teria acreditado nele. Mas a Torre Eiffel era grande de mais, improvável demais para fazer parte de uma fraude. De fato era tão improvável que Lustig conseguiu voltar a Paris seis meses depois e "revender" a Torre Eiffel para outro sucateador e por um preço bem mais alto - uma soma em francos equivalente hoje a mais de um milhão e quinhentos mil dólares!

    A sociedade está repleta de gente com ideias ousadas, mas sem estômago para imprimi-las e publicá-las. A coragem é direcionada para fora, e costuma fazer as pessoas se sentirem mais à vontade, visto que é menos reservada e menos reprimida. Admiramos o corajoso e preferimos ficar perto dele, porque sua autoconfiança nos contagia e nos arranca do nosso próprio reino de introspecção e reflexões.

    Quantas vezes nos desvalorizamos pedindo muito pouco? Quando Cristóvão Colombo propôs que os espanhóis financiassem a sua viagem para as Américas, exigiu também, com insana ousadia, o título de "Grande Almirante dos Oceanos". A corte concordou. O preço que ele fixou foi o que recebeu - exigiu ser tratado com respeito, e foi. Nas negociações, fazer exigências ousadas funciona melhor do que começar com concessões gradativas e tentar satisfazer o outro. Coloque o seu preço lá em cima e depois, como fez o conde Lustig, suba mais ainda. Peça a lua e ficará surpreso com a frequência com que a terá.

    A coragem lhe dá presença e o faz parecer maior. O tímido se mistura com o papel de parede, o corajoso chama atenção, e o que chama atenção atrai poder. É impossível desviar o olhar do audacioso - ficamos ansiosos para ver qual será o seu próximo movimento.

You Might Also Like

0 comentários

Popular Posts

Like us on Facebook

Flickr Images

cadastre

Subscribe